18 fevereiro 2014

O poder do trabalho manual

O trabalho manual é fundamental para entendermos os avanços da sociedade e termos uma maior consciência do mundo. 
Saiba mais!
Publicado em 16/12/2010
Bruno Moreschi

Edição 0101


Há uma preocupação recorrente a muitos filósofos contemporâneos. A de que nossa sociedade atual se beneficia cada vez mais dos bem-vindos avanços tecnológicos, mas se esquece de algo que sempre foi tão salutar para nosso desenvolvimento: a importância do fazer com as mãos.

Muque x cérebro

A razão disso é, principalmente, cultural. Para muitos, a produção manual é ocupação para pessoas pouco escolarizadas, que recebem a alcunha de trabalhadores braçais.

Discordando do menosprezo quase sempre ligado ao homem que trabalha com ações manuais, o sociólogo norte-americano Richard Sennett escreveu O Artífice, no qual analisa a vital importância de valorizarmos o fazer manual. "O pensamento e o sentimento estão contidos no processo de fazer. Para aprender com as coisas, precisamos saber apreciar as qualidades de uma vestimenta ou a maneira certa de escaldar um peixe, já que uma boa roupa e um alimento bem preparado nos permitem imaginar categorias mais amplas do conceito de bom", escreve o sociólogo.

Sociedade anônima

A história da humanidade prova que a relação entre cabeça e mãos cria um jogo curioso entre o mental e o real. Uma das provas dessa constatação está próxima de você: o tijolo da parede mais próxima. Por volta de 7500 a.C., estimulados por uma genuína vontade de se proteger do frio, povos que viviam onde hoje é a atual Turquia matutaram e tiveram a ideia de fortalecer suas frágeis paredes com montes de barro. Essa solução, porém, não esgotou o pensamento acerca do tema. Outras civilizações, como a do antigo Egito, tentaram deixar os tijolos com formas mais regulares, o que permitiu enfileirar mais unidades e, assim, construir moradias mais altas e isoladas da temperatura externa.

As inovações que permitiram tornar um simples monte de barro algo fundamental para a construção de nossas casas foram pensadas e feitas por pessoas anônimas, como eu e você. E de uma maneira na qual as inovações se acumularam a cada nova descoberta, e que foram discutidas, na maioria das vezes, em caráter coletivo. Em outras palavras, um avanço do qual todos nós somos participantes.

Sem a experimentação, um manual de computador, uma receita de bolo ou qualquer outra sistematização seria impossível. O mais importante é que, para ter sucesso, nem sempre é preciso lançar mão de tecnologias, técnicas apuradas nem nada disso. Até grandes criadores fizeram suas descobertas no improviso.

Fazer para entender

Estimular o fazer de maneira manual gera algo ainda mais proveitoso: uma percepção diferenciada diante dos objetos ao nosso redor. Algo que os filósofos costumam chamar de "consciência dos materiais". Afinal, tudo ao nosso redor é transformado por nós.

Autor do livro Objetos de Desejo - Design e Sociedade desde 1750, o professor de arquitetura inglês Adrian Forty enxerga uma intrigante tendência no design atual. Para ele, computadores, tocadores de música, carros, entre tantos outros exemplos, são construídos de uma maneira em que prevalece cada vez mais a preocupação em ocultar o fato de que eles foram feitos por alguém. Essa falsa impressão de que os objetos nascem prontos estimula uma ignorância bastante perversa. Questões como "quem fez isso?" são apenas indagações éticas diluídas nesse complexo processo de camuflagem. Sem uma resposta a essa pergunta, os objetos nos parecem mais vazios, descartáveis e, portanto, sem valor.

Estimular o fazer nada tem a ver com dom ou talento. Trata-se de um dos exercícios mais interessantes de estímulo à liberdade criativa. Por isso, engana-se também quem pensa que o manual nada tem a ver com a inteligência. Editada no século 18 pelos franceses Jean le Rond d'Alembert e Denis Diderot, a Encyclopédie foi uma das primeiras enciclopédias do mundo e trazia, em 33 volumes, uma síntese do pensamento humano. Um passar de olhos no índice mostra como o ato de fazer era valorizado pelo Iluminismo, um dos períodos da cultura mais admirados até hoje. Entre os verbetes estão termos bastante abstratos como "sociedade civil", "senso comum" e "beleza". Mas há também palavras como "chocolate" e "aspargo". Nesse segundo grupo, os autores faziam questão de explicar detalhadamente e incentivar o preparo desses alimentos. Como se quisessem deixar claro que somente fazendo seria possível, de fato, compreender a complexidade das coisas ao nosso redor.

LIVROS
O Artífice, Richard Sennett, Record
Objetos de Desejo - Design e Sociedade desde 1750, Adrian Forty, Cosac Naify

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